01 julho 2016

Que nada!

    Eu não sabia mesmo. Passei dias a fio na mesma janela assistindo ao entardecer que sempre me inspirara e nada. Nada mesmo! Entre tons avermelhados e reflexos dourados, o céu azulzinho ia escurecendo e eu só conseguia me perder em lembranças... O quintal de terra da vovó Diva, o macarrão de domingo na casa da nona Hélia, a farra com os primos, o vinho com meu pai, as roupas lindas que mamãe fazia pra eu vestir nas festas...E nada!
    Havia dias que eu ficava só observando aqueles prédios perdidos no horizonte e pensando em quantas esposas infelizes e maridos safados existiam por ali. Pensava também no inverso! E nas famílias que sofriam com o Câncer ou com o Mal de Alzheimer. Sentia uma enorme empatia por aquelas pessoas, chegava a chorar com a suposição do sofrimento delas, mas era só isso e mais nada.
    Mudei para a enorme janela da sala. De lá, avistava o Edifício Chams, o Hotel Presidente, a torre da CTBC e um pedacinho da praça Tubal Vilela. Ficava chateada porque não conseguia ver a Catedral, mas tudo bem, era bonito assim mesmo e dava para ver o Sol nascer. Agora era o contrário, o Céu escuro ia clareando até ficar azulzinho, e enquanto isso meu filho crescia, eu arranjava trabalho e namorado, minha mãe passeava...E nada!
    Mudaram as estações, minha irmã foi pro Egito, meu irmão deixou a barba crescer, eu engordei e emagreci, fiz bolo de tudo quanto é sabor, ouvi de bossa nova a sertanejo e ... Nada! Nadica de nada, até que .... Aconteceu! Percebi que nunca iria encontrar nada porque já tinha tudo. Foi então que fechei os olhos e agradeci.



Junho 2016